Três séculos de memória

Por Lauro Portela

Em 1918, um grupo de intelectuais formou uma comissão para as comemorações do bicentenário de Mato Grosso. O primeiro convite foi feito por gente bastante íntima das letras: Estevão de Mendonça (autor de “Datas Matogrossenses”), Antônio Fernandes de Souza, Oliveira Mello, João Barboza de Faria e Philogônio Corrêa. Na Câmara Municipal de Cuiabá, entre os que se ofereceram como membros permanentes da comissão que se formou estava o historiador Virgilio Corrêa Filho, ao lado de quatro deputados estaduais, um federal e do intendente municipal (equivalente a prefeito) de Cuiabá Alexandre Addor. Esta comissão seria responsável por: “confecção de um anuário de propaganda do Estado, no qual colaborarão todos os municípios; construção, em Cuiabá, de um obelisco comemorativo; cunhagem de medalhas comemorativas; exposição onde possa o Estado exibir toda a pujança da sua enorme riqueza, todos os produtos da sua indústria e do seu comércio, os trabalhos das suas escolas e dos seus artistas, distinguindo com prêmios, embora modestos, os expositores mais em destaque” (O Matto Grosso, Cuiabá, 7 mar. 1918, p. 2). Essa mesma comissão permanente passou a se reunir com frequência ao longo daquele ano.

Em agosto de 1918, o então presidente de Mato Grosso, Dom Francisco de Aquino Corrêa, bispo de Prusíade, sancionou a Lei n. 790, na qual se oficializava o feriado estadual e o Governo de Mato Grosso se dispunha a financiar as comemorações da data fundacional do estado.

Na constituição da memória coletiva, o que se pretendia com tal comemoração era celebrar a fundação da conquista do território que deu origem a Mato Grosso. Para tanto, fiavam-se no primeiro registro que comprovaria a criação dos primeiros povoados: a certidão que noticiara o achado aurífero do Coxipó. Esta certidão foi mencionada pelo cronista José Barbosa de Sá, que datou como 8 de abril de 1719 o termo destinado a informar ao rei D. João V, de Portugal, as descobertas das jazidas de ouro. É o próprio Barbosa de Sá que, na segunda metade do século XVIII, menciona o “Arraial do Cuiabá” como local de assinatura do documento. Não há outras fontes de confirmação a não ser o próprio relato deste cronista, o qual diz ter copiado de um original nunca encontrado.

Porém, sabe-se que os paulistas vinham minerando ouro na região do Coxipó, desde 1716. A formalização da situação se deu porque o governador de São Paulo, dom Pedro de Almeida Portugal, informou ao rei, que, por sua vez, mandou criar uma “povoação”, no início de 1720. Além disso, dois arraiais mais anteriores demonstram que a ocupação começou antes de 1719: São Gonçalo Velho (anteriormente “Aldeia Velha”, e, atualmente, São Gonçalo Beira Rio) e Forquilha (Coxipó do Ouro). O documento, portanto, seria uma garantia dos achados auríferos àqueles que já os estavam explorando. Além disso, há inexatidão em “Arraial do Cuiabá”. Provavelmente, o rio fosse uma referência geográfica, não o futuro núcleo urbano. Assim, todos os sítios margeados ou de ribeirões tributários deste mesmo rio poderiam figurar como “do Cuiabá”. Esta referência estará presente em alguns nomes de vilas ou lugares: “Vila Real do Senhor Bom Jesus do Cuiabá”; “Santo Antônio do Rio [Cuiabá] Abaixo” (atual Santo Antônio de Leverger); “Rosário do Rio [Cuiabá] Acima” (atual Rosário Oeste). E, no caso destas últimas, o Porto Geral da Vila de Cuiabá baliza o rio acima ou abaixo. Foi apenas o achado das “Lavras do Sutil”, em 1722, que atraiu para o Córrego da Prainha a gente aventureira e que minerava em outras minas. Esta descoberta deu origem ao núcleo urbano do que viria a ser Cuiabá.

O próprio autor das “Datas Matogrossenses” se confundiu com relação às informações da suposta “ata de fundação” de Cuiabá. Em 1935, escrevendo especialmente para o Jornal do Commercio (Corumbá, 13 abr. 1935, p. 12), Estevão de Mendonça afirmou que, sob o signo da tradição, “o termo da fundação de Cuiabá, lavrado a 8 de Abril de 1719 fôra lavrado no alto do morro da Prainha, sob as ramagens densas de um ‘Pau d’óleo’ secular”. O Arraial do Cuiabá, que se referia, na citação de Barbosa de Sá, aos achados no Coxipó, havia se tornado a própria Vila Real do Senhor Bom Jesus do Cuiabá. Mas como aqueles homens ignorariam um achado maior ainda nas fraldas do morro da Prainha, no próprio Córrego da Prainha, a alguns metros de distância?

Analisar o texto do cronista Barbosa de Sá nos permite escapar das amarras que consideram o documento de 1719 como uma “certidão de nascimento” de Cuiabá. Evidenciam-se, antes, as relações de poder que se constituíram em torno de uma fundação de Mato Grosso e de Cuiabá; ou ainda, de uma colonização de Mato Grosso em consequência da fundação de Cuiabá. Em outras palavras, a conquista das terras a oeste da linha definida pelo Tratado de Tordesilhas é um processo anterior ao relatado e envolve a tomada do território indígena e a produção do território colonial. Não é à toa que a fundação da Vila Real do Senhor Bom Jesus do Cuiabá só se dá a 1.º de janeiro de 1727, dia do Senhor Bom Jesus, pelas mãos de Rodrigo César de Meneses, governador de São Paulo, que veio a Cuiabá com este intuito. Daí a criação da Câmara Municipal, o estabelecimento de seu “termo” e, dentro deste, seu “rossio”.

Dois séculos depois, um grupo com bastante influência decidiu comemorar a fundação da cidade como sendo em 1719. Talvez a magnitude do bicentenário e a tradição tenham feito a população ficar com o 8 de Abril em lugar de outra data, como, por exemplo, o 1.º de Janeiro. Isso demonstra que o termo que serviu para noticiar a descoberta de ouro de 1719, no Coxipó, se tornou a “certidão de nascimento” de Cuiabá por uma questão de interesse daqueles que o elegeram para tanto.

Em 1919, havia datas coincidentes. A Missão Salesiana de Mato Grosso comemorava 25 anos de sua chegada, sendo inaugurado, pela ocasião, o novo edifício do Observatório Meteorológico “Dom Bosco”, um pavilhão para as escolas profissionais da Igreja de São Gonçalo, no Porto. A Santa Casa de Misericórdia comemorava 100 anos de existência; fundavam-se a Academia Mato-Grossense de Letras (AML) e o Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso (IHGMT). Havia, portanto, muitos interesses em comemorar o “8 de Abril” por parte daqueles que estavam no poder na Câmara e na Intendência municipais de Cuiabá e pelo fato de o então presidente de Mato Grosso, D. Aquino Corrêa, ser um bispo salesiano. É importante salientar que os membros da Comissão para o Bicentenário de Mato Grosso [e Cuiabá] foram sócios fundadores do IHGMT, que foi fundado e presidido pelo próprio D. Aquino, e as reuniões até a realização da comemoração do bicentenário ocorriam na Câmara Municipal com participação assídua do intendente municipal Alexandre Addor.

Nas comemorações de 1919, foram gastos Rs 534:865$799 (quinhentos e trinta e quatro contos, oitocentos e sessenta e cinco mil, setecentos e noventa e nove réis), dos quais Rs 368:223$545 (trezentos e sessenta e oito, duzentos e vinte e três, quinhentos e quarenta e cinco réis) em melhoramentos públicos. O total de gastos consumiu 9,53% de tudo que fora arrecadado em 1919. A Santa Casa de Misericórdia foi reformada; foi instalada a iluminação elétrica; foi inaugurada a estrada para automóveis de ligação entre o Primeiro (Centro) e o Segundo (Porto) distritos; foram inaugurados, ainda, os melhoramentos no cais do porto e no ajardinamento da Praça Luiz de Albuquerque, com o lançamento da pedra fundamental para a instalação do obelisco doado por Corumbá em homenagem à Cuiabá; foram realizadas benfeitorias no Campo de Demonstração (atualmente, Alameda “Júlio Müller”, em Várzea Grande) e na Igreja de São Gonçalo. Foram distribuídos: medalhas comemorativas cunhadas pela Casa da Moeda em ouro, prata e bronze, e obras sobre a história de Mato Grosso. Foram oferecidos banquetes a autoridades e exibidos filmes na Praça da República para a população. No mínimo, uma data memorável para as pessoas que estiveram presentes às comemorações.

Um século depois, em 2019, a data permanece como tradição e identidade da Cidade Verde. E nesta exposição intitulada “Três séculos de memória”, nós da Superintendência de Arquivo Público/SEPLAG pretendemos apresentar a parte de seu acervo iconográfico que dê conta das transformações urbanas da cidade de Cuiabá. Junto ao conjunto de imagens, vão os respectivos contextos que explicam como se deram os diferentes processos de ampliação da mancha urbana desde seu núcleo formado ainda no período colonial até a expansão dos anos 1960-1970, sob o viés da modernização.

 

Reforma na Santa Casa de Misericórdia de Cuiabá

Reforma na Santa Casa de Misericórdia de Cuiabá
Cuiabá, 1919
Photo Ferrari
BR MT.APMT.COL.400.430.431.1-00001

 

Referências

LE GOFF, Jacques. Documento / Monumento. In LE GOFF, Jacques. História e Memória. 4.ed. Campinas: Unicamp, 1996, p. 535-549.

ROSA. Carlos Alberto. O urbano colonial na terra da conquista. In ROSA, Carlos Alberto & JESUS, Nauk Maria de (orgs.). A terra da conquista - História de Mato Grosso colonial. Cuiabá, Ed. Adriane, 2003, p. 11-64.

CORRÊA, D. Francisco de Aquino. Mensagem dirigida á Assembléa Legislativa, ao instalar-se a sua 3.ª Sessão Ordinaria da 11.ª Legislatura, em 7 de Setembro de 1920, por D. Francisco de Aquino Corrêa, Bispo de Prusiade, Presidente do Estado. Cuiabá: Typographia Official, 1920.