jornal de hontem abril 2017

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VILA REAL DO SENHOR BOM JESUS DO CUIABÁ

MORAES, Angelo Carlos Carlini de

Estudiosos de várias áreas já disseram em outras oportunidades que a cidade é uma das maiores invenções da humanidade. O próprio termo “urbe”, sinônimo para cidade, etimologicamente é derivado da antiga ocupação mesopotâmica denominada Ur, ou seja, a partir desse registro humano espacial específico veio a se formar o conceito acerca daquilo que hoje entendemos e designamos como uma cidade.

Prestes a completar 300 anos, Cuiabá insere-se no rol das centenárias capitais brasileiras que possuem uma história riquíssima e uma cultura diversificada, resultado das muitas misturas das gentes que pra essas bandas afluíram no decorrer dos anos e da influência das etnias indígenas que aqui já tinham se fixado desde tempos imemoriais.

O nome “Cuiabá” possui mais de uma versão no que tange a sua possível origem. Etimologicamente seria derivado do termo bororo Ikuiapá, (o “lugar da ikuia”, sendo “ikuia” uma flecha-arpão utilizada para pescar e “” remetendo a lugar, seria um local utilizado pelos índios bororos para pescar). O nome também é considerado como uma corruptela da palavra guarani kyyaverá (o rio da lontra brilhante) depois transformada em cuyaverá, cuiavá, até chegar à cuiabá.  Diz-se também fazer referência ao termo tupi Kuîaba que designa um tipo de cuia. Ou ainda, que o rio Cuiabá seria o rio “criador de vasilha”, onde “cuia”= vasilha e “abá”= criador. 

A singularidade que cerca a história de Cuiabá e o estado de Mato Grosso como um todo reside no fato da região ser considerada estratégica aos olhos da Coroa Portuguesa desejosa que era de salvaguardar os limites do oeste do Brasil através da ocupação efetiva desta vasta área de fronteira.   

Cravado no centro do continente sul americano o solo cuiabano seria alvo das expedições dos bandeirantes paulistas em busca de ouro e da mão de obra indígena ainda no século XVII (entre 1673 e 1682), através de Manoel de Campos Bicudo e Bartolomeu Bueno da Silva que fundaram o arraial de São Gonçalo – localidade na confluência dos rios Cuiabá e Coxipó-Mirim. No final de 1717, Antonio Pires de Campos seguindo o caminho de seu pai, Manoel, aportará na mesma localidade, a qual rebatizará com o nome de São Gonçalo Velho. Em seguida, a expedição de Pascoal Moreira Cabral, também em busca do índio do sertão, chegará à futura Cuiabá em 1718. Após empreender violenta batalha aos índios Coxiponés, a bandeira de Moreira Cabral, tendo perdido muitos homens, foi amparada pela bandeira dos irmãos Antunes Maciel. Ao seguirem para o arraial de São Gonçalo Velho seus integrantes descobririam as primeiras pepitas de ouro na beira do rio após realizarem uma das refeições. Assim foram descobertas as primeiras minas em território mato-grossense (1719). Nos anos seguintes outras jazidas auríferas seriam descobertas na região, servindo de ensejo à fundação da Cuiabá: uma no arraial denominado Forquilha descoberta provavelmente pelo bandeirante Antonio de Almeida Lara e outra no leito do córrego chamado Prainha, descoberta pelo sorocabano Miguel Sutil de Oliveira em 1721.

Apesar de Cuiabá ter sido elevada à categoria de vila somente em 1º de janeiro de 1727 – a Vila Real do Senhor Bom Jesus do Cuiabá -, a data que permaneceu como o registro oficial de sua fundação foi o 08 de Abril de 1719, que remete a fundação do Arraial da Forquilha, cujas minas tiveram uma efêmera duração.

Para a presente edição do Jornal de Hontem fazemos menção a dois aniversários da cidade testemunhados pelos periódicos cuiabanos ao final do século XX. O jornal O Estado de Mato Grosso por ocasião dos 270 anos de Cuiabá (1989) traz um suplemento comemorativo da data ilustrando parte do conjunto arquitetônico que a caracterizava antigamente, e que, mesmo com todos os efeitos do tempo resguardou uma identidade que se consolidou, justamente, através da produção e reprodução do espaço urbano. A reportagem com o título “Na poesia arquitetônica, retrato de uma história” sintetiza a história cuiabana a partir das modificações de seu patrimônio arquitetônico desde a época colonial, passando pelas transformações quando se torna capital da província em 1835, até as importantes ações do poder público no século XX, mudanças essas que contribuíram para a formação da memória afetiva dos cuiabanos.

O mesmo jornal cinco anos depois, nos 275 anos da capital mato-grossense, tece outra narrativa para recontar a história de Cuiabá enfatizando a ação do poder público no que diz respeito a importância de se promover a construção de grandes obras que modernizariam o espaço urbano da cidade a partir do século XIX: “Cuiabá vira sede do poder e modifica sua fisionomia”. Ainda na mesma publicação um chamado para outra fase vivida pela capital já na década de 1960: “A cidade se incorpora ao capitalismo.” Nessa época Cuiabá insere-se nas políticas públicas do governo federal que promoviam a ocupação da região centro-oeste e da Amazônia Legal. O progresso, como se dizia então, alcançaria estas plagas inexoravelmente. O isolamento geográfico, tido por muitos dos cronistas de Cuiabá como um dos entraves históricos ao pleno desenvolvimento da região, era coisa do passado.

Cuiabá de tanta história e estórias completa esse ano seu 298º aniversário. Envolta num sentimento que mistura um olhar nostálgico para suas origens e tradições ao mesmo tempo em que exalta sem modéstia a constituição de seu bem “moderno” mais importante: a identidade de seu povo. Oxalá essa identidade ajude a servir de alicerce às expectativas mais profícuas das gerações futuras.  

               

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