jornal de hontem dezembro 2015

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E Ela chegou!

PORTELA, Lauro

 

            Na madrugada de 8 para 9 de dezembro, subia o rio Cuiabá um vapor com uma notícia inesperada: o Brasil se tornara uma República. Tal notícia se tornava ainda mais inusitada quando se observa que o aniversário de sua majestade imperial d. Pedro II fora comemorado, em Cuiabá. No dia 18 do mês anterior, o deputado da Assembleia Provincial Cícero Sá “… requereo que se nomeasse uma commissão de cinco membros para, em nome d’Assembléa, ser dirigida uma felicitação a S. M. O Imperador, em demonstração de alta estima ao Augusto Monarcha, lamentando o triste acontecimento do dia 15 de Julho passado, e congratulando-se pôr haver falhado tão cobarde quanto criminoso attentado.” (ARAÚJO, 1.º dez 1889, p. 3)

            O atentado a que se refere o requerimento foi perpetrado pelo caixeiro português Adriano Augusto do Vale, que, antes de disparar contra d. Pedro e errar o tiro na saída de um teatro, havia gritado “Viva a República!” A data do atentado não foi à toa: um dia após a celebração do centenário da Revolução Francesa. A real motivação para o crime, no entanto, nunca foi esclarecida. Quatro meses depois, a monarquia cairia e o velho monarca passaria o resto de sua vida no exílio. É interessante notar que o requerimento foi votado três dias após o 15 de Novembro. Àquela altura, a família imperial já navegava para a Europa. E a notícia da derrubada do Império já havia sido telegrafada para a província do Rio Grande do Sul, de onde partiria, a vapor, para a distante província mato-grossense, através da bacia platina, até alcançar Cuiabá.

            Além das felicitações ao aniversário do imperador, os membros do Partido Liberal ofereceram na noite de 7 de dezembro, na casa do capitão da Guarda Nacional João Baptista d’Oliveira Sobrinho, um baile em homenagem ao grande vencedor das eleições provinciais, o também capitão Generoso Paes Leme de Souza Ponce. Um dia depois de nada valeria a vitória, pois os membros do Partido Conservador seriam mais rápidos em compor com o general Antônio Maria Coelho, novo governador nomeado pelo chefe do Governo Provisório Marechal Deodoro da Fonseca.

            A adesão ao novo regime político, pelo que se pode ler dos poucos fragmentos que nos restaram, foi imediata. O redator de “A Gazeta” Victal Baptista d’Araújo era ele próprio declaradamente um republicano histórico (ou seja, de longa data). O “Viva a República!” e a esperança de transformações políticas estampados na capa do seu jornal do dia 12 de dezembro (três dias depois da chegada da notícia) foi bastante sincero. Todavia, o número de republicanos mato-grossenses era bastante diminuto. Os chefes políticos que assumiram o controle da política local eram os membros monarquistas do Partido Liberal ou do Partido Conservador. Em outras palavras, os republicanos de ocasião eram, em sua esmagadora maioria, os monarquistas do dia anterior.

            Neste sentido, o apoio dado ao novo regime sujeitou-se sempre ao interesse nalguma colocação pública. A vida política mato-grossense (como em outras províncias) dependia das benesses das nomeações a empregos públicos, como fez notar, em 1886, o naturalista americano Herbert H. Smith: “… a população lavra politica e vive do dinheiro que o estado paga. Um emprego, um empreguinho publico que seja, é o objecto de todas as luctas e de todos os calculos. Os dois partidos principais, o liberal e o conservador, se contrapõem reciprocamente como o proprietário e o que nada tem.”

            Tal apoio interessado por parte do “povo” fica patente quando lemos o depoimento do pseudônimo Pérsio (publicado n’O Estado de Matto-Grosso de 11 mar. 1894, p. 3-4) a respeito do ajuntamento “popular” logo após a deposição do presidente José Manuel Murtinho, em 1892, e da formação de uma junta governativa: “… o povo soberano quase jogou a tapona, em palacio, por causa dos empregos; todos querião ser nomeados para os mais rendosos; e houve um momento em que o autor d’estas linhas que, infelizmente, estava presente, fugiu apavorado ao ver, alçados, os nodosos e terriveis cacetes prestes a esborracharem queixos e narizes do descuidado próximo.” O “povo”, tal como durante o Império, era apenas aqueles interessados nos empregos públicos. José Murilo de Carvalho chamou esta “cidadania” interessada nas benesses do Estado de “estadania”.

            A este respeito, é seguro dizer que a República não foi um movimento popular. O testemunho do republicano histórico Aristides Lobo, nas páginas d’O Diário Popular sobre os eventos ocorridos no dia 15 de novembro de 1889, no Rio de Janeiro, deixa uma pista importante: “o povo assistiu a tudo bestializado.” Essa ausência de povo na política mato-grossense pode ser constatada pelo baixo percentual de eleitores. Por exemplo, em 1895, votaram apenas 3,5% de um total de 92.827 habitantes. Devemos considerar que menores de 21 anos, os mendigos, os militares de baixa patente, as mulheres e os analfabetos estavam excluídos do direito de votar.

            Finalmente, a República não representou a grande transformação prometida. Em Mato Grosso, à chegada da República seguiram-se clivagens na política, batalhas militares, o assassinato de um presidente de estado, duas duplicidades da Assembleia Legislativa, uma tentativa de golpe de estado, duas intervenções federais e toda sorte de fraudes e manipulações eleitorais. Todos estes fatos não significam que o período monárquico tenha sido melhor. Com exceção das batalhas militares e do assassinato político, o Brasil Império estava longe de ser um período de paz e progresso. Como escreveu o memorialista Hélio Silva: “Foi difícil fazer a República sem republicanos. Tornou-se impossível realizar a revolução através de contra-revolucionários… Daí as decepções precoces, os desencantamentos prematuros, as frases marcantes em que Saldanha Marinho confessa que ‘não era essa República de seus sonhos’, e tantos outros revolucionários manifestaram a impotência de usar os homens, que atravessaram o caminho, para realizarem o programa por que se haviam batido.”

 

Jornais:

A Gazeta, Cuiabá, 12 de dezembro de 1889, n. 3, ano 2. (Capa)

A Gazeta, Cuiabá, 1.º de dezembro de 1889, n. 1, ano 2.

 

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