jornal de hontem fevereiro 2016

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A guerra chega ao Brasil

PORTELA, Lauro

            Em mares estadunidenses, nas proximidades de Norfolk, na Virgínia, o vapor “Buarque”, pertencente ao Lloyd Brasileiro, foi a pique logo aos primeiros minutos do dia 16 de fevereiro de 1942. O afundamento foi causado por um ataque de submarino sem prévio aviso, causando a morte de uma das 85 pessoas a bordo, conforme publicação d’O Estado de Mato Grosso (18 fev. 1942, p. 1).

            O vapor “Buarque” foi um dos cinco navios brasileiros afundados ao largo da costa atlântica dos EUA, entre fevereiro e março de 1942. Os outros foram: “Olinda”, “Cabedelo”, “Arabutã” e “Cayrú”. Os temíveis submarinos U-boots alemães, sob as ordens de Hitler, passaram a atacar embarcações do Brasil após o presidente da República Getúlio Vargas abandonar de vez a “equidistância pragmática” que marcou a política externa do Estado Novo no início da Segunda Guerra Mundial.

            A neutralidade brasileira foi resultado das divergências entre as posições “liberais”, “pró-EUA”, e “nacionalistas”, “pró-Eixo” (Alemanha, Itália e Japão), da cúpula do governo Vargas. Decidida em julho de 1939, antes do início da guerra, em reunião do Conselho de Segurança Nacional, a posição nacional frente às potências beligerantes refletiu as preferências políticas que apontariam onde o governo compraria armas para o reequipamento das Forças Armadas. O general Francisco José Pinto, chefe do Estado-Maior do Exército tinha preferências pelos EUA; o ministro da Guerra, o cuiabano general Eurico Gaspar Dutra (simpatizante do nazismo), preferia a Alemanha; o ministro da Marinha, o almirante Henrique Aristides Guilhem, a Grã-Bretanha; o próprio presidente Vargas, os europeus. Por fim, optou-se em por se manter os europeus como fornecedores de armamentos.

            Além da compra de armas para a modernização de seu poderio bélico, a neutralidade era interessante ao Brasil no que dizia respeito ao seu aspecto econômico. Como país agro-exportador, o comércio exterior brasileiro pôde tirar vantagens tanto do livre-comércio (advindo das relações comerciais com os EUA), quanto do comércio por compensação (proposto pela Alemanha nazista). Ao longo dos anos 1930, tanto as relações Brasil-EUA quanto Brasil-Alemanha foram ampliadas. O Brasil exportava produtos agrícolas e matérias-primas (essenciais, por exemplo, para a indústria alemã), importando bens industrializados, tais como os equipamentos de guerra produzidos tantos nos EUA quanto na Alemanha.

            O recrudescimento da guerra na Europa e o suporte decisivo do presidente estadunidense Franklin Delano Roosevelt quanto à defesa brasileira fizeram com que o governo Brasileiro optasse pelo lado Aliado (União Soviética, Grã-Bretanha e Estados Unidos) contra o Eixo. Mas esse apoio foi construído paulatinamente por Roosevelt para a obtenção de adesão interna e do continente americano à causa aliada na Europa. Primeiramente, a I Reunião de Chanceleres Americanos, realizada em setembro de 1939, no Panamá estabeleceu a neutralidade de todo continente americano; depois, na Conferência de Havana, já em julho de 1940, estabeleceu-se que qualquer ato de agressão à soberania de um Estado não-americano a qualquer Estado americano seria considerado um atentado a todo continente; finalmente, na III Reunião de Consulta dos Chanceleres das Repúblicas Americanas, realizada no Rio de Janeiro, em janeiro de 1942, já após o ataque japonês à base naval de Pearl Harbor, no Havaí, Roosevelt conseguiu a aprovação de uma recomendação do rompimento das relações diplomáticas das nações americanas em relação aos países do Eixo. O Brasil conseguiu a garantia estadunidense para o fornecimento de armas (no valor de US$ 200 milhões) e defesa do Saliente Nordestino (região que compreende os estados de Alagoas, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte), além da formalização de acordos para o financiamento, via EXIM Bank, de um complexo siderúrgico nacional. Em fevereiro, Vargas enviava em missão seu ministro da Fazenda Sousa Costa para os acertos formais. O Brasil cerrava fileiras, definitivamente, ao lado dos Aliados. E as consequências foram os ataques a embarcações brasileiras.

            Por seu turno, o movimento estudantil, representado principalmente pela UNE (União Nacional dos Estudantes), apontava a incoerência de o Brasil lutar contra o nazi-fascismo sendo uma ditadura com fortes inspirações fascistas. Diversas foram as manifestações em apoio à democracia e aos Aliados. Já ao lado dos Aliados, ficou insustentável para o Estado Novo de Vargas a manutenção de simpatizantes das forças do Eixo, como, por exemplo, o general Dutra (afastado em agosto) e o chefe de polícia do Distrito Federal Filinto Müller, ambos cuiabanos. No caso deste último, sua simpatia pró-nazismo ficou mais patente quando, em 4 de julho de 1942, tentou impedir, junto ao gabinete do ministro da Justiça Francisco Campos, o ato público da UNE. Recebido pelo chefe interino da pasta, Vasco Leitão da Cunha (pró-Aliados), teve ordem de prisão decretada por desacato à autoridade. O incidente causou o afastamento de ambos os envolvidos, além de Francisco Campos (simpatizante do nazi-fascismo) e do presidente do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) Lourival Fontes (também simpatizante do nazi-fascismo).

            Em Cuiabá, a versão dos fatos parece ter sido abafada. N’O Estado de Mato Grosso (11 jul. 1942, p. 4), publicou-se a repercussão da manifestação ocorrida no Rio de Janeiro e sua repercussão em Cuiabá, culminando em uma manifestação estudantil contra o Eixo, no dia 20 de julho. Chama a atenção a afirmativa de que, na Capital Federal, “… a manifestação dos estudantes teve o apoio de todas as autoridades e especialmente do Chefe de Polícia Major Filinto Müller”. Mais adiante, O Estado de Mato Grosso (21 jul. 1942, p. 1 e 4), anuncia a exoneração a pedido de Müller, destacando apenas as elogiosas palavras de Getúlio Vargas acerca da trajetória do major à frente da polícia distrital. No mesmo número de 21 de julho, em destaque, a grande manifestação dos estudantes cuiabanos contra as forças do Eixo.

            Em 22 de agosto de 1942, com o recrudescimento dos ataques de submarinos alemães (chegando a um total de 21 afundamentos) e à pressão popular, Vargas declara Estado de beligerância em relação ao Eixo; no dia 31 do mesmo mês, Estado de guerra. Era “o Brasil na guerra!”, como estampou O Estado de Mato Grosso (23 ago. 1942, p. 1).

 

Jornais:

Capa:

TORPEDEADO por um submarino o navio brasileiro “Buarque”. O Estado de Mato Grosso, Cuiabá, 18 fev. 1942, n. 667, p. 1.

Outros números:

MANIFESTAÇÕES contra o Eixo. O Estado de Mato Grosso, Cuiabá, 11 jul. 1942, n. 780, p. 4.

DEIXOU a Chefia de Polícia o Major Filinto Müller. O Estado de Mato Grosso, Cuiabá, 21 jul. 1942, n. 788, p. 1.

AS COLOSSAIS e magnificas manifestações anti-eixistas de ante-ontem. O Estado de Mato Grosso, Cuiabá, 21 jul. 1942, n. 788, p. 4.

O BRASIL na Guerra! O Estado de Mato Grosso, Cuiabá, 23 ago. 1942, n. 814, p. 1.

DECLARADO o estado de guerra para todo o país. O Estado de Mato Grosso, Cuiabá, 1.º set. 1942, n. 819, p. 1.

 

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