jornal de hontem fevereiro 2017

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O CARNAVAL DOS 250 ANOS DE CUIABÁ

MORAES, Angelo Carlos Carlini de

A etimologia da palavra carnaval é derivada do latim “carnis levale” e significa “adeus à carne”, o nome exprime o ato do “abandono à carne”. A origem do que hoje conhecemos como carnaval se alimenta de várias fontes e tradições. Segundo estudiosos, remonta a festejos da antiga Mesopotâmia e do antigo Egito assim como à celebrações da civilização greco-romana (Festas Dionisíacas, Saturnálias). Eram em princípio celebrações pagãs via de regra em conexão com o calendário agrícola local, e que, gradativamente, acabaram sendo “incorporadas” pela Igreja Católica na Idade Média por ocasião da instituição da quaresma (o período de 40 dias que antecede a páscoa cristã). A idéia contida na “assimilação” do carnaval pela Igreja Católica era fixar uma data onde os homens pudessem cometer seus excessos mundanos para logo em seguida se privarem dos prazeres da carne em nome da obediência ao jejum e da rigidez moral e espiritual que o período da Páscoa exigia.

No Brasil o costume de se brincar o carnaval foi introduzido pelos portugueses durante o período colonial. O chamado “entrudo” seguia a tradição lusitana e caracterizava-se pelo lançamento dos mais variados líquidos entre os participantes; diga-se de passagem que às vezes líquidos nem sempre agradáveis, como por exemplo urina, eram utilizados pelos foliões nas “batalhas” das ruas. Paulatinamente outras formas de brincar o carnaval foram se constituindo, em parte, graças à influência dos vários povos africanos que foram trazidos como escravos ao país.

O fato é que o carnaval é considerado como a festa máxima da expressão popular nacional e é tido e havido quase que como uma instituição. Do tradicional desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro e de São Paulo, passando pelos blocos de rua que arrastam milhões de pessoas em muitas capitais (principalmente na região nordeste), às brincadeiras de rua nas mais diversas cidades do interior do país, quando chega o carnaval, o povo extravasa suas alegrias e frustrações sem os “freios morais” aos quais é submetido cotidianamente ao longo do ano.

O que permanece como traço comum entre os festejos antigos e atuais é o simbolismo da “troca de papéis sociais” que somente essa brincadeira pode proporcionar. Segundo o antropólogo Roberto da Matta: Todo brasileiro nasce num Brasil que tem Carnaval. Sabemos que o Brasil é Brasil por causa do Carnaval. Dizer isso parece trivial, mas não é. (...) A festa desloca as razões e a lógica do bom-senso vigente no mundo diário, abandonando, reforçando ou invertendo rotinas.”

Em 1969 Cuiabá preparava-se para celebrar mais um carnaval e esse era de certa forma especial uma vez que a cidade comemoraria seu aniversário de 250 anos. Em pesquisa realizada em nossa hemeroteca para a presente edição do Jornal de Hontem percebe-se claramente a euforia popular através da mídia impressa às vésperas dos festejos. O jornal O Estado de Mato Grosso do dia 12 de Fevereiro de 1969 exalta o fato de que muitos funcionários públicos federais, notadamente cariocas, vieram para Cuiabá exercer suas funções, acabando assim por contribuir para a melhora do carnaval local.  Até mesmo uma rivalidade histórica com o carnaval da cidade de Corumbá é citada como forma de estímulo à superação aos organizadores do carnaval cuiabano.

Na mesma data o jornal indica um “Roteiro musical para o carnaval”, uma espécie de crítica ao desempenho das bandas que animam os foliões nos clubes da capital.  Nesse sentido, há que se ressaltar a importância e a tradição dos bailes de carnaval nos clubes locais como o Dom Bosco (que promovia regularmente um desfile de fantasias), o Grêmio Antonio João, o Clube Feminino, o Clube Náutico, o Coração da Mocidade, Estrela Dalva e o Centro Operário, conforme atesta a Folha Matogrossense do dia 16 de Fevereiro de 1969.

O Estado de Mato Grosso do dia 16 de Fevereiro anuncia que o desfile oficial do carnaval de 1969 se dará na Avenida Getúlio Vargas e conclama toda a população a se fazer presente. Não obstante a baixa adesão do comércio e indústria locais no sentido de financiar o carnaval daquele ano, o periódico relata que a prefeitura não mediu esforços para fazer uma festa à altura dos 250 anos de Cuiabá, que estavam por completar-se. Prova disso é que foi montada uma Comissão Coordenadora dos Festejos do 250º de aniversário de fundação da capital. Já o periódico Folha Matogrossense, ao cabo de mais um carnaval, louva aquele que foi considerado um dos melhores carnavais da “Capital das Bandeiras” em todos os tempos: “Escola de Samba “Deixa cair”, e o cordão carnavalesco “Coração da Mocidade” - Destaques do carnaval 250 anos.”

Não obstante o grande apelo comercial e financeiro ao qual o carnaval foi submetido, sendo transmutado em uma verdadeira máquina de fazer dinheiro, é inegável que as explicações do que veio a ser o Brasil contemporâneo não podem prescindir desse fenômeno de massas enquanto categoria de análise.  

   

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