jornal de hontem março 2016

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“A violeta: Feminismo e literatura no universo da mulher mato-grossense”

MORAES, Angelo Carlos Carlini de

A instituição do Dia Internacional da Mulher, comemorado anualmente em 08 de Março, é conseqüência direta de uma série de lutas históricas travadas por mulheres de diferentes países ao longo dos anos. Enfrentamentos que foram sobremaneira acirrados na passagem do século XIX ao XX. O contexto de sua afirmação nos remete principalmente às questões ligadas ao mundo do trabalho, mas não somente a isso: o surgimento de movimentos organizados por trabalhadores (as) em situações de recrudescimento das condições de trabalho nos períodos posteriores à chamada Revolução Industrial imiscui-se com as reivindicações pelo direito ao sufrágio pelas mulheres do Ocidente. Em síntese, o contexto de sua formatação representa a busca pela igualdade formal no tratamento destinado às mulheres, seja no âmbito doméstico, seja no social.

Assim como muitos eventos históricos, há um desencontro de informações quanto à narrativa “verdadeira” que deu origem à data, uma vez que a sua consolidação se dará apenas na década de 1970 com o reconhecimento pelas Nações Unidas de um dia dedicado exclusivamente às mulheres. Uma das explicações hoje ainda corrente, faz atribuição à uma suposta greve ocorrida em Nova York em 1857 onde teriam morrido 129 operárias devido a um incêndio na fábrica que trabalhavam. Este acontecimento foi usado como mote pela dirigente do partido socialdemocrata alemão, Clara Zetkin, durante a 2ª Conferência Internacional das Mulheres Socialistas realizada em 1910, na Dinamarca, para sugerir uma data em comemoração às mulheres. Porém, ainda que tenha se fixado como a memória histórica mais duradoura referente ao Dia Internacional da Mulher este evento não se comprovou, como afirmou a pesquisadora canadense Renée Côté em obra publicada em 1984: “O dia Internacional da Mulher – os verdadeiros fatos e datas das misteriosas origens do dia 8 de março, até hoje confusas, maquiadas e esquecidas”. Outra vertente explicativa atribui a uma greve de costureiras ocorrida entre 1909 e 1910 em Nova York, a assunção da data comemorativa. Houve ainda outro incêndio ocorrido numa fábrica têxtil também em Nova York – a Triangle Shirtwaist Company -, em 25 de Março de 1911, onde morreram 146 pessoas, sendo 129 mulheres e meninas, que demarcaria a origem do motivo que levou à instituição do “08 de Março”. Faz-se menção também a uma greve de trabalhadoras tecelãs ocorrida em 1917 em São Petersburgo na Rússia, versão que acabou obliterada em função das contendas ideológicas emanadas pela “Guerra Fria”. Muitas são as explicações que funcionam como “mito fundador” deste dia, mas o fato é que versões foram sendo apropriadas e difundidas por vários países do centro do capitalismo e por movimentos políticos/sociais ao sabor da conjuntura política nacional e internacional.

O que há de se reconhecer, é o caráter eminentemente político que origina o 8 de Março. É na década de 1960 em especial, que a idéia de que se tenha um dia mundial dedicado à mulher retorna com a força simbólica de uma época convulsionada pela revolução dos costumes e impregnada com o sentimento das muitas lutas de caráter libertário em relação ao jugo colonialista ocorridas ao redor do mundo.  A década de 1960 teve uma função de reordenamento do papel e do espaço da mulher na sociedade contemporânea.    

Por ocasião deste dia especial, fazemos aqui um resgate dos mais importantes: a rememoração das publicações do órgão de imprensa “A Violeta”, revista oriunda das atividades do Grêmio Literário “Júlia Lopes”, periódico que teve sua vida útil entre os anos de 1916 a 1950, em Cuiabá. Em pesquisa realizada em nossa hemeroteca para a edição presente do “Jornal de Hontem”, localizamos exemplares deste veículo de comunicação que representou a cultura da mulher letrada cuiabana do começo do século passado. Sua importância reside em dar visibilidade ao universo vivido pelas mulheres da capital e arredores, no sentido de representá-las enquanto artífices e protagonistas de suas próprias histórias. Como bem observa a Professora Yasmin J. Nadaf, responsável pela investigação que “revelou” “A Violeta” para a academia e para a sociedade cuiabana e mato-grossense: “Grande parte de sua produção diz respeito direta e especificamente à mulher – a mulher-esposa, a mulher-mãe, a mulher namorada, a mulher-filha, a mulher-moça, a mulher-educadora, a mulher-estudante, a mulher-funcionária pública e a mulher-profissional liberal. [...] seus escritos, vindos, grande parte deles, de mulheres simples e lutadoras [...] revelam-nos tanto o universo dessas mulheres que os escrevem como o daquelas a quem escrevem: um mundo recheado de criações literárias, desejos, lutas, frustrações, modo de ver e de viver a vida, e o dúbio pensamento ideológico conservador e de progresso.”

É importante frisar que além das publicações de “A Violeta”, o Grêmio Literário “Júlia Lopes” assumiu causas que ultrapassavam os papéis inerentes à condição do que era “ser mulher” à época. Suas atividades filantrópicas em favor do Hospital dos Lázaros e da Santa Casa de Misericórdia – e isso é apenas um dos exemplos - assinalam o espírito de abnegação de suas associadas em prol da sociedade cuiabana, ou, como se dizia, em prol da ideologia da “luz”: os princípios da civilização e do progresso. Suas ações extrapolaram o simples ato de reunir aquelas mulheres que tinham apreço pela literatura e a arte em geral.

Também o conteúdo da revista não se limitava apenas às temáticas literárias como nos reporta novamente Yasmin Nadaf: “A Violeta não falou só de flores às quais nos remete seu título de batismo; tampouco se ocupou apenas da literatura [...] Seus assuntos se estenderam à política, à história, ao feminismo, à religião, à moda para mulher, à culinária, a campanhas educativas, de higiene e de saúde, a registros da sociedade matogrossense e outros [...]”

Exemplo disso é a sessão “Crônica” do número 306 de 30 de Março de 1944 de a “A Violeta”, trazido à baila nesta edição do “Jornal de Hontem”. A respeito da questão alimentar no Brasil de então, diz a revista: “A ciência alimentar não conseguiu ainda dominar o empirismo fazendo com que as complicadas lendas tecidas em torno da alimentação, cedam lugar aos conhecimentos exatos e baseados nos mais profundos conhecimentos e experiências.” Já a publicação de 31 de Março de 1941, em sua primeira página, saúda o intuito do Presidente Vargas em inaugurar uma escola em cada município do Brasil por ocasião da passagem de seu aniversário, dando continuidade assim às ações da Cruzada Nacional da Educação, iniciada em 1932: “Sabe a Cruzada nacional da Educação avaliar o grande patriotismo do Sr. Getúlio Vargas, ofertando-lhe uma das suas mais caras aspirações: o acréscimo sempre maior da instrução popular.” Porém, na mesma sessão, a redatora faz a ressalva de que: “A escola de que mais precisamos, a escola que nos faz falta, a escola que vem de encontro as nossas necessidades é a Profissional Femenina”.

Voltando aos dias que correm, é imperioso reconhecer a experiência sócio/cultural desenvolvida pelas jovens componentes de “A Violeta”, um século atrás. Suas ações, dentro dos limites das possibilidades de atuação em uma sociedade estruturada de maneira patriarcal, nos revelam a ânsia de se fazer ouvir e dialogar com o mundo, sempre tendo como prisma a busca por direitos igualitários e pela redução das assimetrias sociais entre as mulheres e os homens. 

                                                          

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