jornal de hontem março 2017

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As águas de março de 1974

PORTELA, Lauro

Embora as águas do principal rio de Mato Grosso estivessem sendo monitoradas desde o início da estação das chuvas, no fim do verão em 1974, o rio Cuiabá continuava subindo. Na verdade, de janeiro a fevereiro a altura do rio sofreu um recuo de 5m para 4m, em média. No entanto, em março, o registro linimétrico colhido pela Capitania dos Portos, em Cuiabá, alcançou 10,85m – o maior registro em toda história.

No dia 15 de março, a cheia chegou ao porto de Cuiabá. “O Estado de Mato Grosso” (n. 6.755, 16 mar. 1974, p. 8) publicou uma reportagem com imagens dos estragos causados pela enchente. Os bairros mais afetados foram o Barcelos, a Várzea Ana Poupino, o Terceiro e o Porto, além da atual região margeada pela Alameda “Júlio Müller”, na vizinha Várzea Grande. Todo tráfego pela Ponte “Júlio Müller” foi desviado para a Ponte Nova. Segundo o engenheiro Rafael Pedrollo de Paes (2011, p. 4), os 13km² de inundação afetaram cerca de 2400 edificações residenciais e comerciais, desabrigando aproximadamente 12 mil pessoas.

No estado de Mato Grosso, as regiões banhadas pela bacia do Paraguai também foram afetadas. Notadamente, Rosário Oeste, Acorizal, Santo Antônio de Leverger, Barão de Melgaço e Cáceres. A magnitude da enchente mobilizou, além da Defesa Civil e outras autoridades locais, o Exército Brasileiro (EB), a Força Aérea Brasileira (FAB), a Marinha do Brasil (MB) e o Ministério de Interior (à época, ocupado pelo ministro Maurício Rangel Reis, recém empossado no cargo). As imagens dos estragos e dos desabrigados acantonados nas quadras da Universidade Federal de Mato Grosso, em quadras de escolas públicas (como a Escola de I e II Graus “José de Mesquita”, O Centro Educacional “Nilo Póvoas”), na Assembleia Legislativa (à época, situada na rua Barão de Melgaço), no antigo Parque de Exposição (atual avenida da FEB, em Várzea Grande), no Estádio “Presidente Eurico Gaspar Dutra” (o “Dutrinha”) despertou uma onda de solidariedade nas principais cidades mato-grossenses (antes da última divisão territorial, que ocorrerá dali em 1979). De Corumbá, um rebocador da Marinha subiu o rio Paraguai com alimentos, roupas, medicamentos e pessoal especializado para a assistência médica. De Campo Grande, um DHC-5 Buffalo da FAB trouxe o resultado da campanha solidária entre os campo-grandenses. De Dourados, um comboio de caminhões chegou no dia 22 de março.

Da tragédia, n’O Estado de Mato Grosso, há o registro da morte de um idoso por soterramento, no bairro Terceiro. Não há notícias de epidemias descontroladas, as quais normalmente surgem quando o consumo de água potável é substituído pelo consumo de águas poluídas. O governo de José Fragelli foi rápido em mobilizar equipes médicas e de atendimento (Defesa Civil, Corpo de Bombeiros, Polícia Militar etc.) para socorrer a população. O verdadeiro flagelo veio depois.

Ainda em março de 1974, os bairros do Terceiro, do Barcelos e da Várzea Ana Poupino tiveram as residências de seus moradores colocadas abaixo. E então vieram as dificuldades para que aquela população pobre e marginalizada (já que estes bairros eram ocupações irregulares em regiões de várzea) em encontrar um outro lugar para morarem.

Já havia, em Mato Grosso, projetos financiados pelo Banco Nacional de Habitação com apoio local da Companhia de Habitação Popular do Estado de Mato Grosso (COHAB-MT) destinados à construção de moradias populares desde os anos 1960: Cidade Verde e Nova Cuiabá. O Grande Terceiro seria o socorro às vítimas da enchente. Todavia, as 701 unidades ficaram longe de atender às demandas dos desabrigados.

As políticas habitacionais dos anos 1960-1970 põem em prática, em Mato Grosso, os princípios disciplinadores das “cidades operárias”, escreve a historiadora Márcia Bonfim de Arruda (2002, p. 127) citando o filósofo francês Michel Foucault: bairros quadriculados, com casas padronizadas, cujo distanciamento do centro comercial de Cuiabá indicava o privilégio de uns poucos. Para as áreas próximas ao centro, tais como o Porto, a ideia era “urbanizar”.

As pressões imobiliárias comuns às cidades cujas contradições de interesses entre os agentes imobiliários e o restante da população resultou nas ocupações dos chamados “vazios urbanos”, ou “solo ocioso” – locais dotados de alguns equipamentos urbanos (rede de esgoto, distribuição de água, asfalto). As políticas públicas e os interesses dos agentes imobiliários direcionaram as ações de modo a empurrar as populações pobres para locais cada vez mais distantes do centro de Cuiabá. Neste sentido, a área do Porto, a mais atingida pela tragédia de 1974, foi sendo “saneada” de modo a diminuir a ocupação das populações mais pobres. Estas ou eram direcionadas aos poucos bairros de residências populares destinadas aos pobres que o poder público construiu, ou eram fixadas nas áreas invadidas através do “Programa de Erradicação de Moradias Subnormais” (PROMORAR), nos anos 1980 (Veja Diário Oficial do Estado de Mato Grosso, n. 18.089, 4 jul. 1980, p. 1). Em bairros muito antigos, tais como Araés, Lixeira, Quilombo e Duque de Caxias, o projeto “Comunidade Urbana de Recuperação Acelerada” (CURA), implantado na segunda metade da década de 1970, teve como resultado o encarecimento das moradias para os mais pobres, expurgando, aos poucos, essa população de seus espaços. Processo que hoje em dia se denomina “gentrificação” (Sobre os projetos dos anos 1980 Veja CASTOR, 2013, p. 357)

Para além da tragédia, a “Enchente de 1974” deixou marcas persistentes na cidade: periferias distantes; vazios urbanos; gentrificação. As novas levas de imigrantes que Cuiabá recebeu nas últimas décadas do século XX foram submetidas à lógica da exclusão e da especulação imobiliária, constituindo bairros parcamente servidos de equipamentos públicos e lugares cômodos aos olhares dos mais favorecidos.

       

               

                      

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