jornal de hontem outubro 2015

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BANQUETE PARA CEM TALHERES

PORTELA, Lauro

No antigo sítio do teatro “Amor à Arte”, esquina da Rua Joaquim Murtinho com a novíssima Avenida Presidente Getúlio Vargas, ergue-se um charmoso edifício em estilo Art déco, cujas maiores peculiaridades são os arcos característicos de sua varanda. Projetado pelo arquiteto Carlos Porto, sua execução ficou por conta da firma Coimbra Bueno, sob a responsabilidade do engenheiro Cássio Veiga de Sá.
 
Uma dentro do conjunto conhecido como “Obras Oficiais”, sua inauguração foi um marco na interventoria de Júlio S. Müller (1937-1945), durante a ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas (1937-1945). Conforme noticiou O Estado de Mato Grosso, a 4 de outubro de 1940, “a nossa alta sociedade esteve presente ao grande e seleto sarau em que a primeira dama do Estado e a exma. Sra. Helia Vale de Arruda e seus ilustres esposos foram pródigos em atenções para com todos os convivas” (CALHÁO, 6 out. 1940, p. 1). Foi “… um acontecimento memoravel, um dos mais impoentes e significativos a que já temos assistido ultimamente, o grande banquete, de 115 talheres” (CALHÁO, 6 out. 1940, p. 1).
 
A empolgação da imprensa em torno da inauguração do edifício começa, porém, muito antes. Por meses, O Estado de Mato Grosso patrocinou um concurso para a escolha dos nomes dos novos hotel e cinema. Alguns votos foram publicados. Dois destes chamam bastante nossa atenção: o voto em verso intitulado “Voto Justificado” assinado pelo pseudônimo de “Dr. Sayonara” e o voto do recluso, à Cadeia Pública, Florentino Araújo. Ambos foram publicados na seção “Que nomes dar-se ao Hotel e Cinema de Cuiabá?” O primeiro deles, saiu em forma de soneto, a 23 de julho daquele ano:
 
VOTO JUSTIFICADO
 
Seja seu berço ou poiso, o homem a incensa,
exaltando-o entre cívicos assédios…
Assim quero exaltar, em epicédios,
a terra que me dá guarida imensa.
Atendendo a um inquérito da imprensa,
para dar nomes a dois lindos prédios,
– um, Cinema e outro, Hotel, – em termos médios,
Vou dizer o que o meu bestunto pensa.
Na minha opinião, se chamará
o primeiro – da enquétte ao alvoroço, –
simplesmente: “Cinema Cuiabá”.
O segundo, por ser mesmo um colosso
de béla arquitetura, deverá
chamar-se “Grande Hotel de Mato Grosso”.
(DR. SAYONARA apud CALHÁO, 28 jul. 1940, p. 4)
 
O segundo, em prosa, na edição de 4 de agosto, propõe “Hotel Oéste” e “Cinema Urucumacuan”, e justifica:
 
Penso que a celebrada palavra de ordem da época que atravessamos, Oéste, época em que, afinal, os brasileiros descobriram este futuroso e desconhecido Brasil, compreende e sintetiza plenamente o sentido que oferecerá a hospedagem em nossa Capital, às gentes ilustres que hão de vir nos visitar, de outras plagas da Pátria.
 
E, Urucumacuan, por certo, hoje, o maior sonho Matogrossense, um nome assim como saido quase misteriosamente, do seio insondavel dos nossos sertões verdes, incultos e selvagens, deve figurar nas téias mágicas, com letras de oiro, desse oiro que só o Brasil Colonial possuio, como apelido mais oportuno duma casa de Cinema, Civilisado e moderno. (ARAÚJO apud CALHÁO, 4 ago. 1940, p. 4)
 
 Embora o nome que tenha prevalecido seja “Grande Hotel de Mato Grosso”, a mobilização da sociedade por parte da imprensa nos diz muito sobre aquele período. Embebidos pelo discurso de modernidade, Getúlio Vargas, dentro das concepções ideológicas do Estado Novo brasileiro, ao lançar a “Marcha para o Oeste”, em 1938, intentou “civilizar” e “modernizar” (dentro do ideário do Ocidente industrializado) o território brasileiro pertencente ao “outro geográfico”. Aqui o “outro” se refere ao interior, ao sertão em relação ao litoral – este, sim, civilizado, segundo as elites brasileiras da época, ainda que a pecha de “terra incivilizada” atribuída por viajantes estrangeiros recaísse sobre todo o país.
 
Neste sentido, ao se contraporem moderno e atrasado, ficou bastante claro para a elite política mato-grossense adepta do Estado Novo o contraste entre a arquitetura colonial das antigas igrejas e casarões e o moderno Art-déco. Este último estilo (cujo nome vem de Exposition Internacionale des Arts Décoratifs et Industriels Modernes, de 1925) era representativo das aspirações modernistas pós-belle époque, sendo incorporado pragmaticamente aos estilos arquitetônicos dos anos 1920 e 1940. Símbolo também do Estado Novo, a arquitetura Art-déco está presente em grande parte das capitais e grandes cidades brasileiras, sobretudo em Goiânia, Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro.
 
Finalmente, o baile animado pelo Jazz do 16.º B.C., regado a champanhe e serviço de buffet à francesa (com “115 talheres”) a cargo da cozinha do Hotel Esplanada, nos permitem perceber o desejo de ruptura com o passado “incivilizado”. Dentro do discurso da “Marcha para o Oeste”, o engajamento entusiasmado por parte de sua elite política e cultural deixou marcas na paisagem urbana visíveis até hoje não só em prédios públicos, mas em residências e comércios cuiabanos.
 

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