Jornal de hontem setembro 2015

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EDUCAÇÃO RELIGIOSA VERSUS EDUCAÇÃO LEIGA

MORAES, Angelo Carlos Carlini de

Em junho de 1894, sob a solicitação do então bispo de Cuiabá, Dom Carlos D`Amour, desembarcavam em solo mato-grossense os primeiros missionários salesianos. Neste mesmo ano foi implantada a primeira Missão Salesiana indígena às margens do Rio São Lourenço, a chamada Colônia Tereza Cristina. Imbuídos de um espírito catequizador e orientados para uma ação educativa, os salesianos estabeleceriam mais três colônias em Mato Grosso: Meruri, em 1902; Sangradouro, em 1906 e São Marcos, em 1957.

Pouco tempo depois, em 1910, era fundado o Serviço de Proteção ao Índio e Localização de Trabalhadores Nacionais (SPI, criado pelo Decreto n. 8.072 de 20 de Junho), o órgão que viria a ser o embrião da atual Fundação Nacional do Índio (FUNAI). O Marechal Rondon exerceria suas funções como o primeiro diretor do órgão em meio aos seus trabalhos à frente da Comissão de Linhas Telegráficas Estratégicas do Mato Grosso ao Amazonas (a Comissão Rondon), um dos muitos trabalhos de vulto delegados ao militar sertanista durante a Primeira República (1889-1930).

A pesquisa em periódicos cuiabanos da época sob a custódia da Superintendência de Arquivo Público permite perceber a assunção de posturas antagônicas em relação a quem caberia a educação e a consequente tutela legal sobre os povos indígenas em terras mato-grossenses – e no Brasil como um todo. É o que revelam as publicações dos jornais “A cruz”, um jornal de divulgação da doutrina católica e o jornal “A Reacção”, auto intitulado o “Orgam da liga matogrossense de livres pensadores”, sendo deste último as capas que contemplam a edição deste mês do “Jornal de Hontem.”

Enquanto o primeiro veículo de imprensa realça e estimula o papel de evangelização dos salesianos junto às populações indígenas – na ocasião, principalmente os da etnia Bororo -, a segunda publicação entende que o melhor caminho para integrar o índio à vida produtiva nacional de modo a proteger seus territórios e sua cultura, passa pelo trabalho das instituições republicanas, materializado em órgãos como o SPI.

De um lado, a propaganda do Catolicismo cioso de perder seu prestígio e sua influência em função de um turbilhão de mudanças sociais que permeavam a recém fundada república; de outro, a consagração da razão, do progresso e do conhecimento humano – o espírito positivista tão exaltado por Rondon – como forma de instrumentalizar e consolidar o país na busca do sentido de uma identidade nacional comum.

Particularmente, as edições do mês de Setembro de 1912 do “A Reacção”, fazem réplicas ao artigo publicado pela “A Cruz” no dia 08 do mesmo mês, denominado “Catechese”. A edição de 15 de setembro de 1912, dá ênfase ao trabalho desenvolvido pelo SPI na figura do Marechal Rondon em relação à pacificação de várias etnias indígenas e sua incorporação à vida nacional. Já a edição de 22 de setembro traz em sua capa o seguinte título: “Catechese leiga e catechese religiosa”, onde discute a distinção entre os dois métodos adotados no que se refere ao processo civilizador das etnias indígenas. A edição de 29 de setembro, em uma nota menor, faz menção ao perigo da “escravização espiritual”, um erro no qual, segundo o periódico, poderiam incorrer os religiosos no tocante a convivência com os índios. Há uma preocupação evidente com a “liberdade espiritual” dos povos autóctones, e com o fato disso poder vir a macular atribuições intrínsecas à República.

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