jornal de hontem setembro 2016

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AS COMEMORAÇÕES DO PRIMEIRO CENTENÁRIO DE INDEPENDÊNCIA DO BRASIL EM MATO GROSSO

PORTELA, Lauro

No dia 7 de setembro de 1922, o Brasil inteiro comemorava o seu primeiro centenário como país soberano. Na então capital federal, Rio de Janeiro, desde meados de 1920 começou a ser gestada a ideia de uma “Exposição Universal”. A “Exposição Internacional Comemorativa do Centenário da Independência do Brasil (1822-1922)” foi inaugurada no dia da Independência e durou até julho de 1923. Foram convidadas delegações dos Estados Unidos, México, Argentina, Inglaterra, França, Itália, Portugal, Dinamarca, Tchecoslováquia, Suécia, Bélgica, Noruega e Japão para apresentarem aquilo que seus respectivos países e populações realizavam de melhor. Desde 1921, os preparativos para o centenário marcam, também, o retorno da família imperial brasileira depois de três décadas de banimento, após a Proclamação da República, em 1889. Os despojos imperiais de d. Pedro II e da imperatriz Tereza Cristina foram transladados da Europa onde jaziam, chegando ao Rio de Janeiro, em fevereiro de 1921, onde foram depositados na Catedral Metropolitana para visitação pública. Acompanharam os esquifes com os restos mortais imperiais o conde D’Eu, seu filho o príncipe d. Pedro Augusto e o barão de Muritiba. A princesa Isabel, herdeira presuntiva do trono brasileiro, encontrava-se profundamente doente, vindo a falecer ainda em novembro de 1921.

Na capital federal, as comemorações pretenderam apresentar uma imagem de progresso do Brasil. A “Exposição Internacional” devia servir como “vitrine do progresso”. A ideia não era nova: “vitrines do progresso” faziam referência à “Exposição Universal” de Londres, em 1851, numa alusão ao Palácio de Cristal. Desde então até a Primeira Guerra Mundial, todas as exposições universais (sendo as mais representativas as da Pensilvânia, 1876, e Paris, 1889) apresentavam uma visão otimista do futuro como avanço civilizacional do ocidente industrializado.

Em Mato Grosso, como narra o Correio do Estado, os festejos tiveram um tom mais de sessão cívica. Presidida pelo então presidente do estado Pedro Celestino Corrêa da Costa, a programação oficial, promovida pelo Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso (IHGMT) e pela Academia Mato-grossense de Letras (AML), continha concertos com execuções, ao piano e violinos, dos hinos Nacional (cuja letra foi oficializada, em 1922, pelo presidente Epitácio Pessoa), de Mato Grosso (de autoria do bispo dom Aquino Corrêa) e da Independência (de autoria de d. Pedro I), e peças musicais de óperas clássicas Spanische Tänze, Aida e O Guarani, além de declamações de poesias de Olavo Bilac, de José Barnabé de Mesquita, Oscarino Ramos e dom Aquino. Os discursos foram proferidos pelo presidente Pedro Celestino (abertura) e pelo membro da AML Manoel Paes de Oliveira. Esta sessão oficial ficou restrita ao que a sociedade cuiabana da época considerava “mais brilhante e representativo”. Foi realizada no Cine Parisien (onde atualmente se encontra o Grande Hotel, sede da Secretaria de Estado de Cultura de Mato Grosso), às 20 horas daquele mesmo dia.

Todavia, ao longo do dia 7 de setembro, diferentes eventos cívicos e populares ocorreram na cidade. Os quartéis do 16º Batalhão de Caçadores (16 BC) e da Força Pública do Estado (instituição que fazia o policiamento, à época) realizaram hasteamento e executaram os hinos Nacional e da Independência, às 6 horas da manhã. Em seguida, o 16 BC, sob o comando do capitão Silva Pereira, marchou pelas principais ruas de Cuiabá. Ao juramento da bandeira do referido destacamento militar compareceram o presidente Pedro Celestino, o secretário de Estado de Interior, Justiça e Fazenda Virgílio Alves Corrêa Filho. Também presente ao juramento, a Força Pública, sob o comando Geral do major Romão V. Silva Pereira, foi passada em revista por seu comandante em chefe para então seguir em marcha pela cidade.

Ainda pela manhã, no Palácio da Instrução, com início às 9 e meia, o Almirante Augusto Leverger, o barão de Melgaço, foi homenageado em sessão organizada pelo IHGMT e presidida pelo secretário de Estado Virgílio A. Corrêa Filho. Foi orador, na ocasião, além do presidente da sessão, o advogado Estevão de Mendonça. Ao fim, foi inaugurado um retrato do barão.

A recepção oficial do governo do estado se deu, às 14 horas, no Palácio Alencastro. Compareceram autoridades federais, consulares, judiciárias e da administração estadual, além de jornalistas e funcionário públicos para os cumprimentos ao presidente do estado.

Na Praça Alencastro, em frente ao Palácio, o público assistiu às execuções dos hinos Nacional, da Independência e da República cantados pelos alunos da Escola Modelo e Escola Normal acompanhados pelas bandas do 16 BC e da Força Públicas, ambas regidas pelo maestro Emilio Hainé.

Com cunho mais popular, a comemoração do primeiro centenário se deu às 15 horas no Campo d’Ourique (onde atualmente se encontra a Câmara Municipal de Cuiabá) um torneio de “foot-ball” (como se grafava, à época). A intendência municipal (equivalente à prefeitura) de Cuiabá, através do intendente Geral José Antonio de Souza Albuquerque, ofereceu a “Taça Municipal” para ser disputada pelos três clubes filiados à “Liga Matogrossense de Sports Atléticos”: “Commercial Foot-Ball Club”, “Tiradentes Foot-Ball Club” e “Tupy Foot-Ball Club”. Este último sagrou-se campeão ao vencer o “Commercial” por três “goals” a zero.

É interessante notar o contraste entre a “Exposição Universal”, no Rio de Janeiro, e o conjunto de sessões cívicas e eventos populares, em Cuiabá. No primeiro caso, a República desejou apresentar um país de potencial progresso nas bulevards da capital federal abertas no início do século, ou no imenso espaço aberto ocasionado pelo desmonte do Morro do Castelo – considerado um feito, à época, da engenharia brasileira embebida da ideologia sanitarista. Havia ainda um desejo de congraçamento universal após o fim da Grande Guerra (1914-1918, o termo “Primeira Guerra Mundial” só foi empregado após a Segunda Guerra Mundial). O futuro era promissor na visão dos organizadores do evento. No pavilhão brasileiro erguido no Rio de Janeiro, Mato Grosso figurou aos olhos do mundo como potencialidade econômica futura, cuja representação mais acabada era a “Carta de Mato Grosso” elaborada pela “Comissão das Linhas Telegráficas e Estratégicas de Mato Grosso” (conhecida posteriormente como “Comissão Rondon”). Nela estão inscritos, além dos feitos da Comissão na pacificação de povos indígenas e na extensão de linhas telegráficas, os lugares de jazidas minerais e riquezas vegetais.

O ano de 1922 foi movimentado em diversos centros industriais e culturais do Brasil, para além das comemorações do centenário de Independência. É o ano da “Semana de Arte Moderna”, realizada em São Paulo; da Revolta do Forte de Copacabana; fundação do Partido Comunista do Brasil; eleição (março) e posse (novembro) de Artur Bernardes. Estes eventos principais irão movimentar a cultura e a política brasileiras nas décadas vindouras.

Por sua vez, para as elites mato-grossenses a efeméride do centenário da Independência representava uma conexão com seu passado monárquico, presente nas homenagens ao barão de Melgaço. Por outro lado, a disputa da “Taça Municipal” realizada numa praça bastante concorrida pela população mais pobre em contraste com as sessões em salões fechados demonstra o fosso social existente. É preciso lembrar que o Campo d’Ourique ficava distante do centro de Cuiabá (apesar de hoje fazer parte da região central da cidade), praticamente a meio caminho entre o Arsenal de Guerra e os fundos do Palácio Alencastro – seguindo pela antiga Rua do Campo, atual “Rua Barão de Melgaço”. Era onde se realizavam as touradas; anteriormente, foi usada como praça de enforcamento e local para castigo de escravos. Na data do centenário, o campo já contava com o marco da determinação geográfica realizada pelo então tenente-coronel Cândido Mariado da Silva Rondon, instalado em alvenaria, em 1909. Mais uma vez, a festa nacional teve alas bem distintas.

                

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